terça-feira, junho 24, 2008

Plano Aberto - Resenha de Gustavo Martins sobre o Doc do Grito

A vocação do documentário

Ao assistir às duas partes que compõem o documentário sobre o Grito Rock Cuiabá, mais uma vez fiquei positivamente surpreendido pela qualidade do produto final que o povo do Próxima Cena está produzindo: edição ágil e bem humorada, imagens criativas, roteiro bastante eficiente.

Mas como fui convidado aqui para fazer observações críticas sobre o documentário (entenda-se "crítica" aqui como "o que acho que pode melhorar"), vou anotar algumas coisas que talvez possam merecer um cuidado maior nas próximas produções. Antes, é preciso dizer que falo apenas tendo visto o produto final, sem saber em que condições foi feito e com que objetivo específico - mas acredito ser esta a situação da maioria dos espectadores, então beleza.

A primeira coisa que se nota, obviamente, é que o vídeo está dividido em duas partes. A primeira tem pouco mais de quatro minutos, a segunda, pouco mais de dez, e não está explícito o porquê da divisão dessa forma - como a última cena do primeiro vídeo é o começo do próximo, tive a impressão de que se deve entender o trabalho como uma coisa só, dividido apenas pela limitação de tempo do YouTube.

Daí nasceu um primeiro estranhamento, pela linguagem utilizada nos dois trechos. A primeira parte, que foca a pré-produção do evento, tem uma narrativa de fato documental (depoimentos espontâneos, registro de conversas, mostrando as etapas do processo), o que torna o vídeo bastante "novo" e interessante, dando a idéia que acompanharemos os bastidores de como um festival se torna realidade. É um começo promissor para um documentário, pois essa abordagem, até onde eu saiba, ainda não foi aproveitada tão bem.

Já na segunda parte, quando o festival começa, representantes de cada coletivo aparecem em seqüência, explicando em frente à câmera o que fazem, com imagens de shows entre os depoimentos. Com uma série de discursos já prontos, sem interação entre os personagens, troca-se toda espontaneidade do início por uma abordagem puramente institucional. Era essa mesmo a idéia?

Se a idéia era fazer um documentário (ou mesmo um institucional) para ser visto por todos, algumas informações básicas deveriam aparecer no vídeo: o que "Grito Rock"? Onde ele aconteceu? Quais os dias? Se o vídeo se dirige a quem já sabe de tudo isso, provavelmente são pessoas que também já sabem o que significa cada uma das siglas ou coletivos do Cubo, tornando os depoimentos mais "editáveis", digamos. O que me leva a outro ponto: se o documentário vai dar as mesmas informações que já podem ser encontradas nos sites oficiais, ele deveria se aproveitar de seu diferencial, que é a capacidade e vocação de MOSTRAR o que acontece. Por exemplo, quando o Kayapi explica o que é o Cubo Sonorização, fazem falta imagens dos técnicos trabalhando, quando se fala da editora, dos livros e leitores, enfim.

No final, há um considerável trecho em que se fala do Cubo Card que também pede ilustração, que no caso talvez tivesse que ser mais complexa (mostrando uma "compra" com o cartão em algum parceiro, por exemplo? Ou pelo menos um plástico de "cubo card", se é que ele existe fisicamente, hehehe, admito que não sei). Valeria a pena repensar esse trecho. Por último, acho que diversos depoimentos falam em "integração" durante o Grito Rock, mas senti falta de ver isso na tela também - produtores de outros Estados falando, ou mesmo os representantes dos coletivos comentando algo ali, in loco, trocando idéias etc.

Resumindo muito, o documentário só precisa cumprir um pouco mais sua vocação de MOSTRAR seu objeto (como o faz muito bem na primeira parte), ao invés de apenas reunir discursos que concordam sobre ele. Com isso, já diminuiria bastante a diferença entre as duas metades do doc, se é que elas devem ser vistas juntas.

Encerro parabenizando, de novo, a Próxima Cena pela evolução e competência notáveis que têm mostrado em seus trabalhos - se fiz alguns comentários aqui, são apenas opiniões que, acredito, possam suscitar discussões interessantes nos próximos roteiros. Espero não ter cometido nenhuma injustiça grave - se o fiz, foi sem querer, juro. No fim das contas, foi produzido sim um documento importante sobre o Grito Rock 2007, o que por si só já é totalmente louvável.

Muito grato,
GustavoMartins - Ecos Falsos (SP)

2 comentários:

Thiago Dezan disse...

Valeu Gustavo!
dicas anotadas.

Bárbara disse...

muito bacana essa interação, e produtiva.
,)